Atualmente, operadoras dos planos de saúde são responsáveis pela compra de materiais. Polícia Federal vai participar das investigações.

Material descartável reutilizado (Foto: Fabrício Christi/ TV Gazeta)Material descartável reutilizado (Foto: Fabrício Christi/ TV Gazeta)

Material descartável reutilizado (Foto: Fabrício Christi/ TV Gazeta)

O Sindicato dos Estabelecimentos de Serviços de Saúde do Espírito Santo (Sindhes) afirmou que o escândalo envolvendo fornecimento de materiais hospitalares descartáveis reutilizados na Grande Vitória poderia ter sido evitado se os hospitais dominassem o processo de compra dos materiais.

A prática foi descoberta durante a Operação Lama Cirúrgica, da Polícia Civil. Nesta segunda-feira (29), o superintendente da Polícia Federal, Ildo Gasparetto, disse que a PF também vai atuar nas investigações.

O presidente do Sindhes, Ivan Lima, explicou que, no Espírito Santo, o processo de compra dos materiais segue um fluxo contrário ao realizado na maior parte do país.

Segundo ele, na maior parte dos casos, são as operadoras dos planos de saúde as responsáveis pelas compras, e não os hospitais, o que dificulta a fiscalização.

“Em todo o Brasil, quando um médico vai realizar um procedimento, ele marca no hospital e o hospital adquire os materiais necessários. Posteriormente, fatura isso para a operadora de plano de saúde, recebe da operadora e paga ao seu fornecedor. Aqui no Estado, há muito tempo, vínhamos tentando que o fluxo ocorresse dessa forma, que é a forma que entendemos correta. Se nós não dominamos essa cadeia de fornecimento, não temos como garantir 100% de segurança nesse fluxo”, disse Lima.

Ainda de acordo com ele, o sindicato orientou todas as unidades a suspenderem imediatamente o recebimento de materiais de todas as empresas que foram apontadas como participantes nas irregularidades.

Polícia Federal

A Polícia Civil descobriu que o esquema é internacional e que a quadrilha importava materiais dos Estados Unidos. A partir de agora, a Polícia Federal também vai participar das investigações.

“Nós vamos realizar esse trabalho integrado com a Polícia Civil. Vamos verificar de onde estava vindo esse material com o objetivo de identificar e prender esses criminosos que estavam usando e reutilizando materiais indevidos em pessoas no Espírito Santo e adoravelmente em outras regiões do Brasil”, disse Ildo Gasparetto, superintendente da PF.

O superintendente explicou que vai estabelecer contato com outras unidades para monitorar a ação dessa quadrilha em outras regiões do país.

“Vamos manter contato com os órgãos de fiscalização com relação a isso, para verificar a quantia de material que estava chegando e que estava sendo indevidamente utilizada”. finalizou.

Prisões

No dia 16 de fevereiro, os empresários Gustavo Deriz Chagas e Marcos Roberto Krohling Stein – proprietários da Golden Hospitalar -, e o enfermeiro Thiago Waiyn foram detidos na operação.

Thiago Wain, Marcos Roberto Khroling e Gustavo Deriz Chagas. (Foto: Reprodução/Rede Social - Divulgação/ Sesp)Thiago Wain, Marcos Roberto Khroling e Gustavo Deriz Chagas. (Foto: Reprodução/Rede Social - Divulgação/ Sesp)

Thiago Wain, Marcos Roberto Khroling e Gustavo Deriz Chagas. (Foto: Reprodução/Rede Social – Divulgação/ Sesp)

As investigações apontam que os produtos que deveriam ser usados apenas uma vez foram reutilizados 2.536 vezes.

Foi descoberto, ainda, o envolvimento de uma outra empresa, a Esterileto, contratada pela Golden para esterilizar os produtos.

“Há envolvimento de médicos, de empresários, empresas que vendem esses materiais e são utilizados em cirurgias ortopédicas, de enfermeiros, instrumentadores, que utilizam, basicamente, materiais cujo reuso é proibido”, falou o secretário de Segurança Pública, André Garcia.

Ligação telefônica

Num telefonema gravado com a autorização da Justiça, Marcos Stein, um dos donos da Golden Hospitalar, conversa com um integrante da quadrilha que encomendou o material. A conversa aconteceu logo depois que a polícia evitou uma cirurgia em que os instrumentos seriam usados.

“Eu passei um problema, agora, com a Vigilância Sanitária e outros órgãos competentes e eles estão no meu pé”, falou Marcos, pelo telefone.

Ele fala que quer a nota fiscal da importação fraudulenta, mas, com medo, também quer devolver o material. “Com essa auditoria que eu estou aqui na empresa, ela só pode entrar com nota”, disse, na ligação.

O integrante da quadrilha responsável pela venda dos produtos fala que a venda é ilegal e sem nota fiscal.

“O que eu combinei com você foi de eu te mandar o material que eu não tinha nota. Eles não aceitam devolução, e eu já paguei sobre o transporte desse material. A gente vende desse jeito, deixando claro que não é um material legal. O mercado sabe”, destacou.

Terceira empresa

A dona da Esterileto, contratada pela Golden para esterilizar os produtos, disse à reportagem que a culpa do envolvimento da empresa é de um ex-sócio dela.

“O que houve foi uma falha, pela gestão antiga, da entrada desse material na empresa”, falou a sócia da empresa, Mônica Marinhos.

Ela disse que tomou medidas para evitar que isso aconteça de novo. “A gente está sendo até muito chato com os clientes, quando alguém tenta enviar para a gente alguma coisa que não pode ser reprocessada”, contou Mônica.

Envolvidos

Na busca feita na sede da Golden Hospitalar, a polícia encontrou carimbos de três médicos e um receituário assinado e carimbado por um quarto médico, só que em branco.

“Isso é um documento do médico, particular do médico e ele não pode fazer. É uma prática muito suspeita”, falou o vice-presidente do Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo (CRM-ES).

Os quatro médicos estão sendo investigados, e pacientes que eles operaram no Hospital Metropolitano estão preocupados. A aposentada Nilza Maria Plácido teve que fazer uma cirurgia na mão do final de 2017.

“É horrível saber. A sensação é muito ruim, porque, na verdade, eu estou correndo risco. E se tivesse dado algum problema mais sério?”, falou.

Riscos

A gerente da Vigilância Sanitária da Serra, Geane Sobral, falou que as consequências podem se manifestar anos depois.

“Os riscos vão desde uma infecção por vírus, por hepatite, até a micobactéria. Esse dano que pode ser causado à saúde desse paciente nem sempre vai aparecer hoje, ele pode aparecer daqui a 10 anos”, falou.

Hospital

O Hospital Metropolitano disse que suspendeu o recebimento de produtos que eram adquiridos por planos de saúde das empresas mencionadas no inquérito.

Destacou que está apurando a eventual responsabilidade de profissionais citados nas investigações.

O médico Nilo lemos neto afirma que o receituário encontrado na empresa Golden tinha a finalidade de cumprir o fluxo burocrático para confirmação de materiais que ele usou em cirurgia específica.

G1

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